sexta-feira, 15 de maio de 2009

Guiné 63/74 - P4348: Questões politicamente (in)correctas (38): Os nossos queridos nharros...

via Luís Graça & Camaradas da Guiné de Luís Graça em 15/05/09

1. A propósito do vocábulo nharro (que tinha no passado colonial e ainda tem hoje, para alguns falantes da língua portuguesa, uma conotação racista, pejorativa, ofensiva) (*), não resisto a recuperar um velho texto do nosso querido camarada e amigo, o Zé Teixeira, já publicado na I Série do nosso blogue (**).

É um belíssimo texto, hoje esquecido, de difícil acesso, mas que eu continuo a subscrever de alma, coração e mente abertos... (Eu, editor L.G., aqui com dois queridos nharros, da CCAÇ 12, na foto à esquerda, em Finete, Cuor, no 2º semestre de 1969)...

Não é preciso lembrar - a não ser eventualmente para os periquitos da Tabanca Grande - que o Zé foi talvez dos poucos que, graças ao seu papel de enfermeiro (e também por mérito pessoal, pela sua generosidade, coragem, inteligência emocional e demais qualidades humanas), conseguiu saltar a barreira da espécie: ele, tuga, foi aceite e amado pela população fula, e ainda hoje tem verdadeiros amigos, fulas, lá Guiné-Bissau profunda... Ele é amado, mimado, adorado quando lá volta (e, segundo creio, já voltou duas vezes, em 2005 e 2008)...

Devo acrescentar que o termo nharro, que nós usávamos no nosso calão de caserna, na Guiné, e nomeadamente na zona leste, não tinha propriamente uma conotação racista... Minto: cheguei uma vez por outra a ouvir o termo como sinónimo de preto, barrote queimado... Rascistas, puros e duros ? Com certeza, que os havia, embora minoritários, na Guiné de Spínola... No meu tempo, não se pode dizer que eles se manifestassem abertamente, bem pelo contrário... Conheci alguns, em Bissau, que não perdoavam a Spínola a sua política da Guiné Melhor...

O que posso acrescentar é que o significado da palavra dependia dos interlocutores, do contexto da comunicação, do tom de voz, da entoação... Tal como os palavrões, bem duros para a sensibilidade auditiva das gentes do sul, que ainda hoje se ouvem no Norte duriense e minhoto, puro e duro... (onde, de resto, o palavrão é sempre uma manifestação de ternura e de afecto, no círculo familiar e de amigos).

Não sei qual é a origem do termo, provavelmente é crioulo da Guiné. Ele ainda não consta do Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa, mas continua a fazer parte da língua portuguesa viva, uma língua fêmea, uma das línguas mais abertas, plásticas, generosas, criativas e procriadoras que eu conheço... Já o vi traduzido por gandarro, massaro, pessoa ignorante, sem conhecimentos, num sítio brasileiro ...

Continua, por outro lado, a fazer parte do calão dos nossos jovens urbanos e suburbanos... Já vi inclusive a utilização do termo, num blogue, como adjectivo: tuga nharro (ou português ignorante)...

Em suma, que me perdõem os puristas, os ortodoxos, os politicamente correctos, mas vou continuar a utilizá-lo, nomeadamente em (con)textos literários e poéticos, embora sempre em itálico, como por exemplo quando evoquei a morte do meu primeiro soldado, justamente a meu lado, na zona da Ponta do Inglês, Xime, no dia do meu baptismo de fogo, em 7 de Setembro de 1969:

(...) O que interessa é que chorei por ti,
Confesso que chorei por ti,
Que morreste a meu lado,
E que levavas um prisioneiro,
Teu irmão,
Pela mão.
E que não eras meu irmão.
Nem grande nem pequeno.
Nem tinhas a mesma cor de pele.
Nem a mesma religião.
Nem a mesma língua.
Nem a mesma pátria.
Nem o mesmo continente.
Não comias carne de porco
Nem bebias água de Lisboa.
Eras apenas um guinéu,
Um nharro,
Soldado-atirador
De 2ª classe.
Ganhavas 600 pesos de pré.
Um saco de arroz por mês
Para alimentar a tua família.
Para mim, eras apenas um homem,
Da espécie Homo Sapiens Sapiens.
A única que chegou até aos nossos dias.
O primeiro que eu vi morrer a meu lado.
Nunca mais chorei por ninguém.
Chorei por ti, Ieró Jau.
Chorei de raiva. (...)

Luís Graça


Mas voltemos ao Zé Teixeira, o nosso Esquilo Sorridente, o nosso tabanqueiro das primeiras horas, um dos fundadores e animadores da Tabanca de Matosinhos, o talentoso colaborador do nosso blogue (cujos textos já mereciam um livro!), o homem sensível e solidário, o nharro mais nharro de todos os tugas que passaram pela Guiné...


Não é um texto qualquer, é uma página de antologia, arrancada do coração onde se faz um sentida homenagem aos órfãos de Pátria, aos nossos queridos nharros... É também um dedo acusador, apontado ao Estado português...

Obrigado, Zé, ninguém saberia dizer isto melhor do que tu!

O José Teixeira foi 1.º Cabo Enfermeiro na CCAÇ 2381, Buba, Quebo, Mampatá e Empada, 1968/70.

Ei-lo aqui, no Saltinho, trinta e cinco anos depois, em 2005, com a mulher, Adada, do actual Régulo de Sinchã Shambel, Suleimane Shambel Baldé, filho do Régulo Shambel, de Contabane (em 1968/70).

Um belo exemplo do que é a hospitalidade fula: " A Adada, filha do Aliu de Mampatá, a oferecer-me um ronco para nha mindjer, um lindo colar que tirou do seu pescoço". (LG)



Aos nossos queridos nharros...


por Zé Teixeira


Tropa africana, que connosco deram o seu sangue suor e lágrimas, por Portugal, com toda a carga emotiva, de carinho e afecto que a palavra nharro possa conter.

O programa aparecido na TV (***) teve pelo menos o condão de nos pôr a reflectir, a nós que durante cerca de dois anos convivemos diariamente com a tropa africana, fiel a Portugal e não ao regime, como alguns tentam deixar passar.

O conceito de mãe-pátria, Metrópole, Lisboa, estava arreigada naquela gente, não pelos políticos, mas pelos portugueses brancos que por lá foram passando, muitos dos quais para cumprir penas de índole criminal e quantas vezes por estarem em desacordo com os políticos e as políticas exercidas em Portugal.

Era um conceito forte, de esperança e de orgulho. Foi com eles que eu aprendi quanto se deve respeitar a bandeira do meu País. Com que orgulho eles a saudavam (e toda a população) no hastear e arrear diário. Gesto que ainda hoje se repete. Há um ano em Bissau, [em 2005, ] pude testemunhar o toque de hastear no quartel da Amura e a reacção de toda a população na rua exterior, até onde era possível ouvir o toque.

Era este conceito de filhos de Portugal, aliado naturalmente à propaganda da época e aos benefícios financeiros que os faziam alinhar ao nosso lado com a sua experiência e conhecimento de logística local, dos carreiros das tabancas inimigas, dos perigos desconhecidos para um europeu ingénuo, para quem tudo era estranho, desde o clima ao modo de estar em sociedade, à floresta com os seus segredos e perigos, às técnicas de guerrilha usadas pelo adversário.

Pergunto:

- Quem de nós, periquitos, não sentiu ao chegar, uma mão amiga, um sorriso e um alerta para um eventual perigo ?

- Quem nos orientava na Tabanca, na busca de uma lavandera bonita e jeitosa ?

- Quem nos avisava dos perigos da floresta, abelhas, formigas, cobras ? (Aos bloguistas que se deram ao trabalho de lerem o meu diário (****), recordo a cena do ataque de abelhas e a forma como um milícia cujo rosto não fixei que me agarrou por um braço, me escondeu atrás de uma árvore e me aconselhou a ficar rigidamente quieto até elas, as abelhas, se irem embora. Foi assim que aprendi a não ter medo de abelhas e tanto jeito me fez no segundo ataque que sofri mais tarde.)

- Quem nos indicava à chegada o melhor sítio para tomar banho, no rio para tomar banho sem correr perigo ?

- Quem nos arranjava os frangos e os cabritos para as tainas, para esquecer as mágoas ?

- Quem se prontificava a ajudar o colega do morteiro, o enfermeiro (Bons amigos que tive e recordo com saudade), no transporte do equipamento, etc. ?

- Quem ainda hoje apesar de tão desprezados pela mãe-pátria, como costumavam dizer, nos recebem com um carinho e afecto, que só quem lá foi consegue entender e apreciar ? (Vi e senti lágrimas, recebi abraços longos e quentes, passados 35 anos de separação).

- Quem servia o meu País e desprezava o seu país, deixando mulheres e filhos da outra banda (Kebá de Empada, meu querido amigo, recordo as conversas que tive contigo, sobre as tuas duas mulheres e os teus filhos que optaram pelo outro lado, quanto tu sofrias quando eras atacado! Porque te recusavas a ir comigo para o mato!).

- Quem, debaixo de fogo, avançava de peito aberto para o Inimigo (eu testemunhei), protegendo-nos (quantos de nós tão acagaçados, que não cabia um feijão no buraquinho) convencidos que era esse o caminho certo para o seu País ?

- Quem vergonhosamente os abandonou, deixando que tantos fossem assassinados pelos seus conterrâneos, só porque estavam do lado errado, quando politicamente correcto Portugal admitiu que não tinha saída, a não ser dar a oportunidade a um povo de construir e seguir o seu próprio destino ?

- Quem a partir desse momento os deixou órfãos de Pátria, obrigando-os a irem procurar a sua pátria que até então lhe garantiam não existir, sem qualquer preocupação de lhe dar o prémio merecido por tudo quanto fizeram em nome e para Portugal ?

- Quem lhe traiu todas as promessas de uma Guiné melhor, com Portugal ?

Sinto vergonha. Estão-me na memória os Sambá, os Adbulai, os Ussumane, os Amadu, os Aliu, os Braima, os Mamadu, tantos outros, que conheci e com quem convivi sadiamente, que me acompanharam em tantos encontros com o adversário e que merecem ser considerados filhos de Portugal, pelo que fizeram, pelo que sentiam e ainda sentem, pela alegria que expressam quando nos vem chegar.

Quantos deles assassinados por incúria de Portugal, quantos andaram anos fugidos no mato, deixando a família nas mãos dos adversários, quantos ainda não reconstruíram as suas vidas, quantos sofrem o stress de guerra, quantos morreram à fome, quantos passam fome, por falta de trabalho. Não sabiam fazer mais nada a não ser guerra.

Telefonou-me há dias o Quintino Procel, de Empada. Esse conseguiu fazer no meu tempo a 4ª classe e seguiu a carreira de enfermeiro, sendo hoje o enfermeiro-chefe em Canjadude. Quando em 2005 passei por Empada, procurei-o.Alguém o informou da minha presença e o seu telefonema chegou um ano depois:
- Tissera, tu vai na Guiné e não fala comigo ? Eu na tem casa em Canjadude. Bó na vem e firma lá. Eu fico triste, manga dele, por não ver Tissera. - Foram estas palavras que guardei no coração passados 35 anos.


Creio que ainda há algum tempo para Portugal olhar para esta gente. Não pode desperdiçar esta oportunidade.



Creio que nós, antigos combatentes, ainda podemos fazer algo por eles. No mínimo ir visitá-los(os que puderem), testemunhar-lhes a nossa amizade, tanto quanto eles nos deram a deles. Permitir que sintam e vivam essa alegria de não sentirem que foram esquecidos, por aqueles que, como eles, deram sangue, suor e lágrimas, por uma Pátria que, não sendo actualmente a deles, se deve sentir orgulhosa de os ter tido como filhos, embora de 2ª...


Zé Teixeira

[Revisão / fixação de texto: L.G.]


____________

Notas de L.G.:

(*) Vd. poste de 11 de Maio de 2006 > Guiné 63/74 - DCCXLIII: Aos nossos queridos nharros (Zé Teixeira)

(**) Vd. poste de 14 de Maio de 2009 > Guiné 63/74 - P4341: Questões politicamente (in)correctas (38): Abuso e abuso do termo 'nharro' (Zeca Macedo / Henrique Matos)

(***) Vd. post de 6 de Maio de 2006 > Guiné 63/74 - DCCXXX: Ex-comandos africanos, 'órfãos de Pátria', reportagem na RTP 1 (José Martins)

(****) Vd. post de 14 de Março de 2006 > Guiné 63/74 - DCXXVI: O meu diário (Zé Teixeira) (fim): Confesso que vi e vivi

1 comentário:

Bernardo Mendes disse...

Puta q pariu o politicamente correcto.

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