sexta-feira, 9 de maio de 2008

As pretensas ideologias heréticas de há quarenta anos se transformaram-se na...

via Sobre o tempo que passa de JAM em 09/05/08

Daqui a bocado vou gravar na SIC um programa assinalando as comemorações do Maio 68. Fiz o meu trabalho de casa de pesquisa de memórias. Comecei em 1963 com ao aparecimento da revista O Tempo e o Modo e a Análise Social. Passei a 1964, ano da emergência dos Beatles e do começo da era Brejnev. Reparei na cisão delgadista contra o PCP e, sobretudo, na cisão maoísta no PCP com Francisco Martins Rodrigues. Até, em Novembro, o jornal Avante! denuncia dois membros da FAP, entrados clandestinamente em Portugal. Idênticas denúncias surgirão em O Militante de Fevereiro de 1965 e em o Avante! de Março de 1965. Passei para o Caso Luandino Vieira na Sociedade Portuguesa de Escritores, com protestos pela atribuição de um prémio a este militante do MPLA, de origem europeia. Sociedade será encerrada.


Em 1965, foi o assassinato de Delgado e o fim da unidade nacional na defesa do ultramar. Se alguns confirmam o crepúsculo das ideologias (Fernandez de la Mora), outros continuam a lire le Capital (Althusser e Balibar), e a ser pour Marx (Althusser), tanto para a procura de um socialismo humanista (Fromm), como para que se passe, entre cristãos e marxistas, do anátema ao diálogo (Garaudy). Entretanto, Manuel Alegre, já no exílio, edita Praça da Canção e Fernando Ribeiro de Melo lança a Antologia da Poesia Erótica e Satírica, organizada por Natália Correia, com a colaboração de Mário Cesariny, Luís Pacheco, José Carlos Ary dos Santos e Ernesto Melo e Castro, todos processados por abuso de liberdade de imprensa. Na campanha eleitoral de Outubro, aparecem vários cristãos que alinham com a oposição democrática, pondo acento tónico na defesa dos direitos do homem e utilizando como bandeira a pastoral de João XXIII. Surge também um Movimento Cristão de Acção Democrática, depois da emissão de um manifesto Cristianismo e Política Social. Por seu lado, o Opus Dei lança a revista universitária Tempo, tendo como editor Adelino Amaro da Costa e contando, entre os colaboradores, João Morais Barbosa, Raul Junqueiro e José António Lamas.


1966 é o tempo de Magriços, Código Civil e Ponte Salazar, nos quarenta anos do 28 de Maio. 1967 é a visita de Paulo VI e o nascimento da LUAR. Bem como de hippies, morte de Che Guevara e transplante do coração. Surge também a desconstrução pós-moderna. É então que emerge Jacques Derrida (1930), com L´Écriture et la Différence, base de certa leitura pós-moderna, quando teoriza a desconstrução, invocando a fenomenologia de Husserl e a hermenêutica de Heidegger. Porque o entendimento apenas é provisório, dado que há um infinito processo de reinterpretação, baseado na interacção entre o leitor e o texto. Entre nós, destaque para Manuel Alegre que lança O Canto e as Armas. Há grandes inundações em Lisboa (25 de Novembro). Mais de duzentos mortos. Vários estudantes, mobilizados para o apoio às vítimas, começam a publicar um boletim intitulado Solidariedade Estudantil. E começa a saga dos papéis da extrema-esquerda: Lançado o boletim O Proletário, órgão do Comité Marxista-Leninista Português, editado em Paris (Maio). Surge em Lovaina o primeiro número dos Cadernos Socialistas com Manuel Sertório e Manuel Lucena, (Julho). Emitem-se, em Paris, os Cadernos de Circunstância com Alfredo Margarido, Fernando Medeiros e Manuel Vilaverde Cabral (Novembro).

Finalmente, 1968. A queda de Salazar e a Primavera de Marcello Caetano, ou a impossível renovação na continuidade. Porque a chamada doença da prosperidade da sociedade de consumo manifesta através de sucessivas revoltas estudantis, com destaque para o processo da universidade de Nanterre em Paris (22-03-1968), que vai desencadear o chamado Maio 1968, num tempo de men in dark time (Arendt, 1968), quando Amitai Etzioni publica The Active Society. Nesse mesmo ano realiza-se a Conferência de Medellin do episcopado sul-americano, onde, invocando-se a libertação, a promoção do homem e o desenvolvimento integral, se criticam os pecados sociais da violência institucionalizada e da dependência. É então que o padre Gustavo Gutierrez inventa a fórmula teologia da libertação. Este movimento teológico católico tem paralelo com o movimento protestante da teologia da esperança e dele deriva o processo da teologia da revolução, de carácter marxista, marcante nos anos setenta. A teologia da revolução defendia a conciliação entre o catolicismo e o marxismo e que levou alguns a considerar o guerrilheiro como um jesuíta da guerra ou um Frei Beto a declarar que um cristão é um comunista, mesmo que o não queira e que um comunista é um cristão, mesmo que não creia. Mas a teologia da libertação é um movimento bem mais amplo que passa pelas obras de Jürgen Moltmann, Metz, Harvey Cox.


Acontece que a teologia da libertação foi incrementada a partir do Maio de 68 como uma teologia para a revolução, onde o reino de Deus passou a ser considerado como a revolução de todas as revoluções (Helmut Gollwitzer) ou como a salvação da revolução (Jürgen Moltmann), opondo-se à teologia do desenvolvimento e superando a teologia dita da impugnação. Ela transformou-se numa teologia da violência, em oposição aos que defendiam uma ética da não violência

Até Salazar é socialista com a nacionalização dos TLP, a companhia Telefones de Lisboa e do Porto (1 de Janeiro). Greve da Carris termina com agradecimento formal e público dos trabalhadores a Salazar, sendo a cerimónia transmitida pela televisão (Julho).

Surge O Comunista, órgão de uma dissidência do Comité Marxista-Leninista Português, depois da chamada segunda conferência da organização (Dezembro). O jornal é dirigido por um grupo onde milita Hélder Costa, publicando-se até Julho de 1972. Tem ligações aos maoístas do Porto, liderados por Pedro Baptista e José Pacheco Pereira. Este assume-se, então, como agitador cultural, tentando mesmo boicotar cursos realizados pela Cooperativa Confronto de Francisco Sá Carneiro, onde participa César Oliveira (1941-1997), acusado de tentar difundir o ideário anarco-sindicalista. O futuro defensor e propagandista do cavaquismo quer, então, criar um verdadeiro partido comunista, fielmente marxista-leninista. Há-de qualificar tal atitude como luta pela liberdade, sendo aplaudido unanimemente por toda a grande burguesia devorista que sempre adorou este jogo de fingimentos e cambalhotas que, apesar de radicalmente verboso, não afecta os respectivos interesses, dado que até lhe pede subsídios e avenças.

Depois vem 1969. Da crise de Coimbra às eleições marcelistas. Da chegada do homem à Lua ao festival de Woodstock. O ano é marcado por esse one small step for a man, one giant leap for mankind, com um ser humano, Neil Amstrong, a locomover-se na Lua (às 22 horas de 21 de Julho), na sequência da viagem da nave Apollo 11. É também um tempo de marxismos imaginários e sociedade imperfeita.


No plano das ideias, no ano em que desapareciam Theodor Adorno e António Sérgio, eis que Raymond Aron, na ressaca do Mai 68, contra o qual se ergueu, teoriza as desilusões do progresso e denuncia os marxismos imaginários (Aron), enquanto Milovan Djilas se resigna com a sociedade imperfeita (Djilas) e Carl Schmitt (1888-1986) revê e reedita Politische Theologie, com uma primeira edição de 1922. Na mesma onda, Jules Monnerot, procurando fazer um inventário das mitologias políticas do século, lança Sociologie de la Révolution.


Chega, por fim, 1970. Eurocomunismo e subida de Allende ao poder. No ano em que Paul Samuelson recebe o Nobel da economia, refira-se que o prémio Nobel da medicina de 1965, o francês Jacques Monod publica um ensaio sobre a filosofia natural da biologia moderna, Le Hasard et la Necessité, enquanto Jean-Marie Bénoist proclama que Marx est Mort, enquanto o jesuíta belga, que, no Brasil, é colaborador de D. Helder da Câmara, bispo da Olinda e Recife, Joseph Comblin, teoriza a Théologie de la Révolution. No ano da inauguração da barragem de Assuão e da fundação do movimento Greenpeace, em Amsterdão, o britânico Norman Cohn, inventaria os milenaristas revolucionários e os anarquistas místicos da Idade Média, em The Pursuit of the Millenium. Por cá, é o fundado o Movimento Reorganizativo do Partido do Proletariado por Arnaldo Matos, secretário-geral, Fernando Rosas e João Machado (18 de Setembro).


Apenas concluo que as pretensas ideologias heréticas de há quarenta anos se transformaram-se na religião dominante. Os antidogmáticos de ontem, assentes no politicamente correcto da hierarquia do aparelho de Estado caem na tentação constantina de um neodogmatismo. Eu continuo a ser do contra.

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