Fim de semana em viagem na companhia de um dos mais inteligentes homens de cultura da nossa distante terra para lá dos oceanos. Revisitação dos lugares por onde passaram, viveram e morerram gerações de portugueses; ecos grandiosos e esforçados de uma gesta que teima em assomar à lembrança, mesmo quando, regressados e fechados ao autismo da micro-Europa, as pedras das casas, dos entrepostos e das igrejas entretanto caídas em ruínas nos dizem que fomos grandes, que arrostamos perigos, que o mundo suspendeu a respiração perante a nossa feroz ousadia. Passagem por Lopburi, cem quilómetros a norte de Ayuthia, antiga capital do Sião, onde o Rei Narai mandou edificar um palácio. Este lugarejo, agora entregue ao formigueiro do bazar e dos trabalhos agrícolas, foi testemunha de uma tragédia. Constantino Falcão, o aventureiro grego que servira e traíra os britânicos, que se servira dos missionários portugueses para ganhar a confiança do monarca siamês para logo se transformar em factotum dos franceses, aqui mandou construir um verdadeiro palácio. O homem, vindo do nada mas cheio de expediente e inteligência, galgou a hierarquia do mandarinato até se transformar na eminência parda do monarca. Encheu-lhe a cabeça de mirabolantes ideias imperiais, precipitou uma crise nas relações com os holandeses da VOC e com os ingleses da Companhia das Índias e mancomunou-se com os infames padres das Missions Etrangères de Paris, que serviam mais os ânimos do Rei Sol que o interesse dessas muitas comunidades católicas que jesuítas e dominicanos portugueses haviam laboriosamente constituído ao longo de dois séculos. O nosso embaixador Pero Vaz de Siqueira aqui esteve em 1686 na vã tentativa de alertar o Grande Rei para os perigos em que incorria ao franquear as portas a esses sui generis prelados franceses, génios da calúnia anti-portuguesa e mansos servos da megalomania do monarca de Versalhes. Em vão, pois não lhe deram ouvidos. O Grego subiu ao zénite, fez da sua casa o emblema do triunfo e fortuna. Os siameses - o povo, a nobreza, o exército - não gostaram. A água transbordou quando se fez constar que os missionários franceses se preparavam para converter o Grande Rei. A indignação atingiu o rubro quando um exército francês desembarcou em Banguecoque com a pueril desculpa de vir "proteger o Sião". Revolta popular, revolta do exército, aprisionamento do monarca, já doente e incapaz de controlar os acontecimentos. O Grego foi apanhado à porta da sua sumptuosa mansão, arrastado pelas ruas, cortado às postas e dado a servir à canzoada faminta. Os missionários franceses fugiram e só conseguiram sobreviver graças à protecção dos bons padres portugueses. Quanto ao corpo expedicionário francês, meteu a cauda entre as pernas e retirou-se sem dar protecção àqueles que o haviam mandado vir. Ao olhar para estas ruínas, paradigma da inutilidade de tanto esforço, não posso deixar de me lembrar que os padres portugueses e os católicos por eles semeados eram - e continuaram a ser - respeitados por terras do Sião. Em frente à casa do Grego, a suprema ironia. A rua que conduz às ruínas exibe o nome de Avenue de France !
Fonte: Combustões - post de Miguel Castelo-Branco de 24Nov2007
Nota Pessoal
"Lopburi, cem quilómetros a norte de Ayuthia, antiga capital do Sião"
Um dia... também gostaria de ir a Ayuthia para, tal como acontece com o Miguel, embriagar-me com a grandeza da Pátria.
Rui Moio
Fonte: Combustões - post de Miguel Castelo-Branco de 24Nov2007
Nota Pessoal
"Lopburi, cem quilómetros a norte de Ayuthia, antiga capital do Sião"
Um dia... também gostaria de ir a Ayuthia para, tal como acontece com o Miguel, embriagar-me com a grandeza da Pátria.
Rui Moio
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