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sábado, 17 de abril de 2010

Guiné 63/74 - P6191: Lançamento do livro do Amadu Bailo Djaló: Lisboa, Museu...

via Luís Graça & Camaradas da Guiné by Eduardo J. Magalhães Ribeiro on 4/19/10

1.O nosso Camarada Manuel Bernardo, Cor Inf Ref, amável e prestimosamente enviou-nos, para divulgação, o texto da sua alocução no lançamento do livro do Amadú Djaló, Guineense, Comando, Português, informando-nos ao mesmo tempo, que quem quiser pode consultar as fotos do evento no site Guerra do Ultramar:


Livro "Guineense, Comando, Português; Comandos Africanos 1964-1974", 1.º volume


1. Cumprimentos

- Dr. Lobo do Amaral
- Cor. "Cmd" Raul Folques
- Dr. Nuno Rogeiro
- O autor Amadú Djaló
- Cmd Virgínio Briote

- Todos os presentes…

Não tenho os dotes oratórios dos camaradas e amigos que me antecederam e muito menos dos do professor e ilustre comentador da SIC, que é o Dr. Nuno Rogeiro, pelo que vou limitar-me a ler um texto que elaborei para esta ocasião.

Agradeço o amável e honroso convite que me foi formulado pelo Presidente da Associação de Comandos, Dr. Lobo do Amaral, com quem já colaborara na edição de um outro livro sobre o 25 de Novembro e também incluído nesta colecção Mama Sume, da Associação de Comandos.

Para quem não me conhece e não compreende a minha presença neste acto solene de apresentação do livro do Alferes graduado Amadú Djaló, adiantarei que me envolvi com a Guiné e com os guineenses, quando fui solicitado por um grande amigo e camarada do meu Curso de Infantaria, o Coronel José Pais, pouco tempo antes de falecer, para que eu denunciasse os crimes contra a humanidade praticados na Guiné, no pós-independência, contra os seus militares, e outros, que incluía os designados "comandos africanos".
Apesar de nunca me ter deslocado a este território, fiz questão de cumprir a promessa feita.

Assim, nesse sentido, em 2007 publiquei o livro Guerra Paz e Fuzilamento dos Guerreiros; Guiné 1970-1980, onde, além dos 53 "comandos africanos", na grande maioria oficiais e sargentos, identifiquei 182 elementos, que igualmente foram fuzilados clandestinamente pelas autoridades guineenses, depois de serem detidos, sem ser oficialmente formulada qualquer acusação.
Nesta cerca de duas centenas de vítimas estão incluídos 34 militares do Exército, 14 fuzileiros especiais e 14 milícias, além de vários régulos e cipaios.

Quero lembrar aos presentes que os nomes daqueles 53 "comandos" africanos mandados fuzilar clandestinamente pelo PAIGC, se encontram desde Novembro do ano passado inscritos nas paredes do Memorial dos Combatentes do Ultramar, no Forte do Bom Sucesso, em Belém, depois de uma porfiada campanha nesse sentido feita pela Associação de Comandos.
Pena foi que nesse acto não tivessem tomado a posição de esclarecer as pessoas, e nomeadamente os combatentes, dessa vergonhosa afronta e dos crimes praticados e consubstanciados nesse tipo de actuação.

Questões prévias

Antes de me debruçar sobre este livro do Amadú Djaló, permitam-me que, aproveitando estar junto de tantos militares e amigos, tente esclarecer dois assuntos, que foram referidos em livros publicados recentemente.

O primeiro tem a ver com a crítica feita pelo meu amigo Cor Brandão Ferreira, no seu último livro (Em Nome da Pátria) em relação à maneira como deviam ter sido solucionadas as guerras subversivas que enfrentávamos em Angola, Guiné e Moçambique. Ele não concorda com o princípio, que eu defendo, de que "a solução para este tipo de guerra deve ser política, através de negociações para a paz, e de preferência em posição de força."
Julgo que, genericamente, o princípio deverá ser este. Recordo ter sido o utilizado pelo General De Gaulle, na Argélia… E lembrava igualmente ter ocorrido, em 1972, a última oportunidade perdida pelo anterior regime de iniciar um processo negocial na Guiné, como foi proposto a Lisboa pelo então General António de Spínola, na sequência de um encontro com o Presidente do Senegal, Leopold Senghor.

O segundo diz respeito a uma referência errada à minha actuação antes e pós 25 de Abril, em relação ao falecido Marechal Spínola, feita pelo Professor Luís Nuno Rodrigues, na biografia deste oficial, publicada recentemente e lançado na semana passada, em Lisboa.

Afirma o referido autor, com base na transcrição de um livro meu (Memórias da Revolução; Portugal 1974-1975) em relação a um passo significativo para a reintegração de Spínola na sociedade portuguesa, o seguinte:

"(…) Os "fiéis" de sempre voltam a cerrar fileiras em torno do Velho. Em 1977, um grupo de oficiais, entre os quais Manuel Monge. Manuel Amaro Bernardo e Caçorino Dias, solicitaram ao CEME, General Rocha Vieira, que resolvesse a sua situação remuneratória (…). Meses depois, a 27-2-1978, Spínola foi finalmente reintegrado nas FA (…)."

Daquilo que conheço apenas o Manuel Monge poderá ser considerado um "fiel de sempre", pois o Caçorino Dias apenas o terá conhecido em 1973, numa visita à Guiné, a propósito da contestação desencadeada ao Congresso de Combatentes e eu nunca o tinha visto, contactado ou trabalhado com ele até essa altura (1977). Apenas tive ocasião de lhe falar pela primeira vez, quando pedi uma entrevista, em 1993, para um trabalho universitário, depois publicado no livro Marcello e Spínola; a Ruptura (…)".

E dos cinco oficiais, onde eu me incluo e que tomaram essa atitude de solidariedade castrense, os dois não transcritos do meu texto – os então Major José Pais e Capitão Ribeiro da Fonseca –, poder-se-iam considerar muito mais ligados ao Marechal desde os tempos da Guiné, onde prestaram serviço e comandaram companhias em operações.

Lembro ainda que imediatamente antes dessa afirmação, no livro Memórias da Revolução (…), eu frisava que apenas tinha conhecido António de Spínola depois de ele regressar do exílio, pós-11 de Março de 1975.

Mas eu já estou habituado que façam más transcrições dos meus livros, como aconteceu, com o Dr. Almeida Santos, para o seu Quase Memórias. Mas terão sempre que me ouvir em relação aos erros cometidos…, pois estou no meu direito de tentar restabelecer a verdade dos factos.

Um grande "comando" guineense"

Entrando na análise desta obra, começaria por dizer que o seu autor foi um militar perseverante e distinto, que percorreu as funções das três classes atribuídas aos combatentes: praça (soldado e cabo), sargento e oficial, ao longo dos 11 anos que durou a guerra na Guiné.
Amadú Djaló, com o Curso de Comandos, que frequentou em 1964, seria transformado de um jovem comerciante independente, na vida civil, num grande combatente.
Para tudo na vida é preciso ter sorte e ele teve-a com os militares que foram seus instrutores e, depois, com o Alferes Maurício Saraiva, comandante do seu grupo (Os Fantasmas) e que foi considerado como um dos melhores combatentes da Guerra do Ultramar.

A este propósito lembro que os instrutores e monitores deste Curso de Comandos foram militares muito valentes, quer na Guiné, quer nos outros teatros de operações.
Quatro deles viriam a ser galardoados com a mais alta condecoração, a Ordem Militar da Torre Espada, do Valor Lealdade e Mérito, em 1969/70: Tenente Jaime Abreu Cardoso, 2.º Sargento Ferreira Gaspar, 2.º Sargento Marcelino da Mata e Capitão Maurício Saraiva. Dos restantes, sete seriam condecorados com a Cruz de Guerra (alguns com mais que uma).

Aliás, durante a guerra da Guiné, e por feitos praticados em operações foram condecorados com a Torre Espada mais quatro oficiais dos comandos: Major Almeida Bruno, Capitão Ribeiro da Fonseca, e os guineenses Cherne Sissé e João Bacar Jaló. Pena foi que o último comandante do Batalhão de Comandos Africanos da Guiné, o Coronel Raul Folques (aqui presente e também na capa deste livro), que já se distinguira em Angola e condecorado com uma terceira Cruz de Guerra em 1973, não tivesse merecido da hierarquia militar a ambicionada Torre Espada.


Lisboa > Museu Militar > 15 de Abril de 2010 > Os nossos camaradas, membros do nosso blogue, João Parreira (de costas) e Mário Dias, ex-comandos do CTIG (1964/64), em conversa com o comandante Apoim Calvão (em segundo plano, entre os dois).

Foto: © Luís Graça (2010). Direitos reservados


Quanto ao conteúdo da obra poder-se-á dizer que se trata de uma história triste, contada na primeira pessoa ao logo destas 300 páginas, como tristes e dramáticas serão todas as histórias de guerra.
Nela se descrevem as acções onde as nossas tropas sofrem feridos e mortes de camaradas, que com eles conviviam no dia-a-dia. Essas são marcas que ficarão para sempre na nossa memória. O autor fez bem em salientar, em anexo, os nomes de todos eles.
Na fase inicial de combate, no Grupo Fantasmas do então Alferes Maurício Saraiva já se nota, muitas vezes, uma mistura dos guerrilheiros com as populações, por conivência ou ameaças sobre elas, o que dificulta a actuação, sem os designados danos colaterais.
No entanto, o bom senso e a experiência do Amadú foram factores importantes para o bom andamento das operações. A sua actividade nos "comandos" manteve-se após a saída deste oficial, com a sua integração no Grupo Centuriões do Alferes Luís Rainha.

Após a intensa actividade operacional entre 1964 e 1966, nesses grupos de "comandos", Amadú sentiu a necessidade de descansar para "recarregar as baterias", voltando à sua condição de condutor. Assim, durante três anos passou pela CCS/QG e por vários batalhões: o BCav 757, o BCaç 1877, o BCav 1905 e BCaç 2856, que estiveram sedeados em Bafatá.

Com a ordem de regressar aos "comandos" em 1969, com vista à formação da 1.ª CCmds Af., Amadú, tal como os seus antigos camaradas Braima Bá e Tomás Camará, regressou às lides operacionais, agora (1970) sob a liderança do Tenente João Bacar Jaló, um figura mítica e muito considerada pelas gentes da Guiné.

Mas, antes, ainda teve que frequentar um curso acelerado com o então Capitão "Comando" Barbosa Henriques, um militar que, depois do 25 de Abril, prestaria serviço comigo no Tribunal Militar.

Recordo a manifestação sentida dos "comandos" guineenses residentes na área da grande Lisboa, com os seus trajes típicos maometanos, no dia do seu funeral, há alguns anos, no cemitério do Alto de S. João. Despediram-se do seu amigo com o habitual grito "Mama Sume"

Grandes operações nos países vizinhos

Além das mais variadas operações feitas em todo o território e nomeadamente nas matas de Morés ou da Cobaiana, saliento as duas efectuadas em território estrangeiro.
A Mar Verde, na Guiné-Conacri, em Novembro de 1970, em que previamente surgiram dúvidas nos elementos da 1.ª CCmds Af. sobre a sua participação naquelas condições e onde actuaram juntamente com elementos dissidentes daquele país.
Os principais objectivos acabariam por não ser conseguidos, devido a falhas dos serviços de informações em relação à localização dos aviões e do presidente Sékou Turé, mas ocorreu o notável feito da libertação de 26 portugueses, que o PAIGC mantinha em prisões na capital do país.
Nesta operação a companhia de Comandos teve uma baixa de peso, pois o Tenente Januário Lopes desertou e entregou-se com o seu grupo de 24 homens. Esta não é porém a versão de Marcelino da Mata, com acção de comando importante à frente do seu grupo, após a morte do alferes na fase inicial, e que diz terem-nos deixado para trás por falta de coragem em os ir lá buscar na retirada.
O facto é que nas declarações à comissão da ONU, dias depois, Januário afirmou ter de facto desertado e acabaria por ser fuzilado com os seus homens no mês seguinte.

Amadú aquando dos preparativos para esta operação afirma no livro:
"(…) A nós, o PAIGC não nos poupava. Que me lembre não me recordo ver alguns dos nossos matar os feridos. Nem deixávamos nenhum ferido do PAIGC na terra de ninguém. Se estivesse ferido, pedíamos a evacuação para o Hospital Militar. Certamente que alguns de nós, brancos ou negros não se comportavam assim tão dignamente, mas não eram a maioria. E se fossemos apanhados pela tropa do Sékou Turé, de certeza que não haveria nenhum sobrevivente. (…)

A segunda, a operação Ametista Real, foi realizada em Maio de 1973, à base de Cumbamori, no Senegal, em que seria empenhado todo o Batalhão de Comandos Africano, sob o comando do então Major Almeida Bruno.
O objectivo, desta vez, foi conseguido, pois levou à destruição dos depósitos de armas e munições e numerosas baixas no PAIGC, tal como seria parado, pouco tempo depois, o cerco a Guidaje, que já durava havia três semanas.

O Batalhão de Comandos também sofreu bastantes baixas e a retirada do Senegal para o território da Guiné foi deveras penosa e feita com grandes dificuldades. Seria mais uma vez a grande experiência do Amadú e o apoio eficiente dado pelos aviões da Força Aérea a resolver a situação no final da operação. O autor descreve o sucedido, nas pag. 253 e 254:
"(…) Continuámos a retirar em direcção à fronteira. Não podíamos forçar muito, porque o Jamanca (tenente e comandante da companhia) só podia andar com o apoio de alguém e o Capitão Folques, com a perna ferida também tinha muita dificuldade em andar e estávamos ainda longe de Guidage.
"Pedimos apoio á aviação, mas recusaram. Que estavam a a voar muito alto e era difícil localizarem-nos. (…) Perguntei ao soldado que transportava o morteiro se tinha alguma granada de fumo. (…) O Capitão Folques transmitiu para os aviões (…). Disparei com o morteiro para sinalizar o local a partir do qual os aviões podiam bombardear.
"Uma grande bola branca de fumo já tinham visto dos aviões, ouvimo-los dizer. A partir deste momento, o Capitão Folques disse sueste do fumo, a sul, a sudoeste e a oeste, arrasar tudo, tudo! (…) Essa granada de fumo ajudou-nos muito. (…)
"Chegámos junto do arame farpado de Guidage entre as 18 e as 19H00, mortos de sede e fome. Em Guidage não havia nada para comer. Nem medicamentos. (…)

Como se vê, foram tempos dramáticos e de grande sofrimento os passados nessa altura… E pelas transcrições feitas julgo que ficarão de algum modo elucidados sobre o conteúdo desta obra.

Antes de terminar apenas quero fazer duas pequenas observações.
A primeira em relação ao editor, por na contra-capa não ter colocado outra fotografia do autor, em que no fundo estivessem nomes de guineenses (talvez os fuzilados e colocados recentemente no Memorial do Bom Sucesso) e não os que se encontram nessa foto.

A segunda por o autor não fazer qualquer referência à actuação do Marcelino da Mata naquelas grandes operações, atrás referidas, onde ele teve desempenho brilhante e relevante.
Lembro ainda o facto de ele ter sido o militar mais condecorado do Exército Português em toda a Guerra do Ultramar. Mas o Amadú Djaló, na pág. 243 do livro, esclarece a sua atitude em relação a este oficial:

"O ambiente entre nós nem sempre foi o melhor. Havia rivalidades étnicas que se cruzavam com os problemas que ocorriam em qualquer unidade militar. "

A terminar, quero elogiar o autor por esta significativa e importante obra hoje foi aqui lançada e que acabou por ser publicada mercê da sua persistência de vários anos.
De assinalar igualmente o trabalho meritório do "Comando" Virgínio Briote, que contribuiu bastante para a execução deste projecto, tal como na sua eficiente divulgação.
Elogio igualmente o editor, Dr. Lobo do Amaral, Presidente da Associação de Comandos, por numa altura de crise geral e editorial, nomeadamente em relação aos livros de ensaio ou memórias, se ter abalançado na sua publicação.

Muitas felicidades para os três, para o Coronel Raul Folques e para o Dr. Nuno Rogeiro, assim como para todos os presentes.

Muito Obrigado!

Manuel Bernardo
Lisboa, 15-04-2010
_________

Nota de MR:

sexta-feira, 9 de abril de 2010

M197 - Os RANGERS vistos pelo Jornal "O Primeiro de Janeiro" em reportagem d...

via COISASDOMR by Eduardo J. Magalhães Ribeiro on 3/31/10
Reportagem sobre os OpEsp/RANGERS, publicada pelo jornal "O Primeiro de Janeiro", em reportagem de 4 de Março 1991, que nos foi enviada pelo RANGER Abílio Rodrigues






segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

A Ponte Aérea da Vergonha.Esquecer??? NUNCA.

via BRAVOS RETORNADOS, ESPOLIADOS, DESLOCADOS... by MariaNJardim on 2/10/10
Começou em Julho de 75 e acabou a 3 de Novembro, desse mesmo ano. Quatro meses para evacuar meio milhão de pessoas e dizer adeus a Angola. Centenas de aviões, milhares de voos. Aos números imprecisos soma-se a crónica dos ressentimentos. O que aconteceu e quem teve a culpa?
Os nomes baralham-se, calam-se os dramas. O ódio é sempre mais espesso que o sangue, mas há um momento em que nem isso adianta. É quando Portugal e traição já não se distinguem e os arautos do tempo repetem o veredicto. Ventos da História, descolonização possível. Desresponsabilização, descontracção e água benta. Cobardia. Pois claro.

A 17 de Julho, a ponte aérea começa.

Gonçalves Ribeiro, mais tarde alto-comissário para os refugiados, afirma o seu pudor em abordar a matéria em causa, que define como "a experiência da sua vida". Mal ou bem, é ele o nome que todos apontam como coordenador do air-lift-ponte aérea-que em três meses e meio transportou quase meio milhão de pessoas de Nova Lisboa e Luanda para o aeroporto da Portela.

"Houve necessidade de um certo voluntarismo, por uma questão de dignidade nacional. Era uma da últimas coisas que Portugal tinha de fazer. Ter a certeza de que quem quisesse vir não ficava. Usávamos o rádio para chegar aos sítios mais isolados, à mata, para tentar saber onde é que havia gente a precisar de transporte. Mandávamos lá a Força Aérea para as trazer aos dois grandes aeroportos. Chegavam de todo o lado, exaustos, traumatizados, sem nada. Chegou a uma altura em que a tropa portuguesa já se tinha vindo quase toda embora e mesmo em Luanda as pessoas só se sentiam seguras no aeroporto. Chegámos a ter lá 5000, numa caserna para 500 homens."

A comida era a da base, quando havia, as instalações inexistentes. As possíveis.
O homem da ponte aérea suspira.

"Para ser diferente era preciso que houvesse aqui uma situação estável. A pergunta principal é porque é que se levou tanto tempo a descolonizar. Toda a gente fala dos militares, mas não fomos nós que começámos a guerra. E aguentámos-la catorze anos. Chegava para encontrar uma solução política, não? Até porque a situação em Angola estava perfeitamente controlada do ponto de vista militar: com a UNITA não tínhamos qualquer confronto e a Leste e a Norte, as forças que se nos opunham estavam, respectivamente, na Zâmbia e no Zaire. Mas assim, desta forma, tudo tinha de correr mal."

O desespero era tal para entrar num avião que as pessoas ofereciam tudo. Aos funcionários de check in, aos pilotos, a quem encontrassem. Termos de café, comida, álcool, casas, carros, barcos, dinheiro, diamantes, favores variados. E quando não era para entrar num avião era para meter lá dentro mais qualquer coisa. Nem toda a gente podia ou tinha tempo de despachar os pertences por mar.

Mais ou menos rigoroso no seu trabalho de check in, mais quilo menos quilo e um recorde de 26 horas seguidas ao balcão, João F., nascido em Luanda, funcionário da Tap, viu acontecer muita coisa. O tráfico de influências corria à desfilada, e para quem fosse habilidoso havia sempre um expediente para mandar tudo para Lisboa. Os mais modestos iam todos os dias ao aeroporto despachar pequenos embrulhos, os mais ambiciosos certificavam-se de ter tudo do outro lado do mar antes de dizer adeus a Angola.

Coisa que não deixava de ser arriscada: a João F., que despachou o frigorífico e o fogão, desapareceram-lhe os dois no aeroporto da Portela.

"Mais tarde descobri que tinha sido um colega e recuperei as coisas. Houve muita desonestidade. As pessoas traziam o que era delas e o que não era, aproveitavam-se da situação. Gente que nunca tinha estado em Angola chegava ao sítio do aeroporto onde as coisas se iam amontoando e escolhia o que queria. Houve nitidamente um abandono daquela gente."

Regressado a 1 de Novembro, de 1975, com um pedido de transferência, teve de procurar outro emprego: só foi readmitido na TAP dois anos depois e para cúmulo retiraram-lhe o tempo da ponte aérea.
"Os registos perderam-se e ninguém se lembra", conclui com um encolher de ombros.
"Dizem eles."

Em Nova Lisboa a situação era tremenda. Havia uma espécie de grande hangar e as pessoas chegavam das mais variadas formas, carregadas de malas. Como não as podiam levar — havia um limite de 30 kg por passageiro — havia uma montanha incrível de bagagem deixada para trás. Não havia condições nenhumas, a sanita era um antigo avião de campanha completamente recuperado que um oficial qualquer tinha resolvido pôr ali como monumento. Imagine-se, um avião que tinha andado na guerra!

"Quem controlava eram os guerrilheiros da Unita, que tinham um aspecto inacreditável. A tropa já se tinha vindo embora. Assim tínhamos de discutir horas com os UNITAS que queriam entrar nos aviões para ir lá buscar pessoas, e assegurar que eles não inutilizassem o avião. Era essa a minha maior preocupação quando estava no solo."

José Nico, brigadeiro da Força Aérea, na época capitão, não esconde a amargura que lhe ficou.

"O que andei a fazer sobretudo, foi evacuar os militares e suas famílias. Naqueles tempos era tudo ao contrário. Evacuava-se a tropa antes dos civis. A situação era tal que um dia, quando me pediram para ir complementar a acção dos aviões civis — porque o grosso da ponte propriamente dita foi feita por eles — e embarcar aquela gente que estava no aeroporto de Luanda à espera em vez de uma companhia de militares, os soldados se revoltaram. Armaram uma situação tão crítica que obrigou a uma intervenção."

Cala-se, pensativo. Viveu a juventude em Luanda, foi estudar para a metrópole. O resto da família regressou antes da independência. À excepção do pai, que só voltou em 79.

"Era empregado numa companhia que não fechou. Teve de se mudar para um quarto ao lado do escritório para não andar na rua, mas mesmo assim iam lá visita-lo muitas vezes para o revistar. O que quer dizer roubar. Ele não se abre muito."
O silêncio quebra-se uma última vez.
"Foi um abandono de todo o povo português. Vivi muitos anos revoltado até me habituar à ideia de que tinham sido os ventos da História."

É a 11 de Novembro de 1975, que tudo é suposto acabar. A ponte aérea acaba só a 3 de Dezembro desse ano. A esposa de Vitor B. regressa no dia anterior, num avião regular da TAP. Agora e durante algum tempo, os funcionários da imigração ainda apõem nos passaportes o carimbo Luanda-Portugal — saída.

Resta na cidade o alto-comissário, almirante Leonel Cardoso, e os seus colaboradores mais próximos, além de uma companhia de pára-quedistas, dois helicópteros e dois navios.

No palácio do governo, contra um painel do mapa-mundi com caravelas, o almirante lê a declaração de entrega da soberania do território. Ao povo de Angola.Já que não há mais ninguém na sala além dos portugueses e de um batalhão de jornalistas.
Ninguém para cantar o hino.
....Levantai hoje de novo o esplendor de Portugal,...
Logo de seguida, Leonel Cardoso, séquito e bandeiras partem nos navios, pela calada da noite, escondidos da vergonha, e da cobardia dos políticos e militares, que atraiçoaram séculos de História, entregando de mão beijada, o futuro de milhões de seres humanos, á crueldade do abandono e da incerteza do futuro. Esquecer? NUNCA.
17 de Abril de 2008 por Fernanda Câncio
FONTE

domingo, 14 de fevereiro de 2010

Filme fuga à guerra da descolonização

via BRAVOS RETORNADOS, ESPOLIADOS, DESLOCADOS... by MariaNJardim on 1/21/10

'Vitória' recorda fuga de África

Ouvir com webReader
Drama: Emoções fortes na nova novela da SIC
Vitoriasic

Acabada de chegar da Nova Zelândia, Danae Magalhães está radiante com a participação na futura novela 'Vitória', que a SIC vai transmitir e cujo enredo assenta na vivência dramática dos portugueses, que tiveram de abandonar as colónias africanas e deixar tudo para trás, regressando sem bens e, em muitos casos, sem familiares.

"É uma experiência muito rica e que me toca de forma especial. Os meus pais tiveram de sair de Moçambique", contou ontem a actriz e antiga miss, nas filmagens da novela em Viana do Castelo, junto ao navio 'Gil Eanes', que transportou milhares de retornados de África.
A recriação do ambiente de 1975 – que inclui o porto de Alcântara – promete ser um dos aspectos mais marcantes da novela, produzida pela SP Televisão, que mobilizou 300 figurantes, usando em muitos casos roupas e objectos da época cedidos por famílias de retornados.
"Como psicóloga e apaixonada por História e investigação, este é um trabalho estimulante", frisou Danae Magalhães, empenhada no papel de 'Alice', mãe de 'Rodrigo' – o protagonista da novela, representado por Diogo Morgado, que contracena com Joana Seixas. O elenco inclui Virgílio Teixeira, a apresentadora Helena Ramos e o cantor Carlos Mendes.
Os laços de amizade e de ódio despoletados por antepassados na fuga à guerra da descolonização vão marcar as relações familiares dos novos tempos. "Esta novela vai provocar o debate e a atenção que são devidos às pessoas que viveram o drama da descolonização e que o Estado português procurou escamotear", assegurou Sofia Almeida, chefe de produção, convicta de que 'Vitória' vai emocionar os portugueses, e sobretudo os que "viveram o drama de perder tudo mas venceram, assumindo-se os grandes impulsionadores da economia portuguesa".
Mário Fernandes - CORREIO DA MANHÃ(Lisboa) - 31.08.2008.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

AOFA quer anular cortes nas pensões de ex-combatentes

via Leste de Angola by Jorge Santos - Op.Cripto on 1/18/10
por Manuel Carlos Freire «Diário de Notícias» Oficiais vão pedir inconstitucionalidade da lei que reduz acréscimo vitalício anual. A Associação dos Oficiais das Forças Armadas (AOFA) vai "patrocinar a competente acção contenciosa" para tentar obter a inconstitucionalidade da lei, aprovada...

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Livro: Timor, Abandono e Tragédia de José Morais e Silva e Manuel Amaro Bern...


Nota: os bolds são meus.
Rui Moio

via nonas by nonas on 12/16/09
Faz hoje 34 anos que o Tenente-Coronel Rui Alberto de Maggiolo de Gouveia foi assassinado por um pelotão de fuzilamento - do qual fazia parte Xanana Gusmão - da Fretilin juntamente com mais 60 prisioneiros após terem escavado a vala comum onde seriam enterrados, em Aileu. Este herói militar português foi alvejado pelo carrasco Mari Alkatiri conforme os testemunhos recolhidos neste livro que acaba por ser uma homenagem ao antigo Comandante da Polícia de Timor.
Este magnífico livro sobre a trágica descolonização de Timor, editado pela Prefácio, em 2000, revela ao longo das 270 páginas toda a traição orquestrada desde o MFA em Lisboa, pelos Governos Provisórios; o papel do Governador Lemos Pires; os subversivos papéis fundamentais dos majores Arnão Metelo, Fernandes Mota e Costa Jónatas, representantes comunistas da Comissão Coordenadora do MFA; os espancamentos e as torturas por Hermenegildo Alves, Rogério Lobato e Alarico Fernandes feitas na prisão a Maggiolo; o provável acordo secreto entre Lisboa, Washington e Jacarta para que Timor passasse a ser a 27.ª província da Indonésia - conforme escreveu e defendeu Mário Soares - devido à importância do petróleo nas águas timorenses, do importante papel geopolítico regional da Austrália e dos interesses do Tio Sam da qual resultou a invasão militar indonésia com o beneplácito do presidente americano Gerald Ford e do "guru" Henry Kissinger depois da visita destes senhores do mundo a Jacarta; a guerra civil timorense causadora de 3.000 mil mortos.
Faz parte das páginas do livro o extraordinário depoimento de sua Mulher, D. Maria Natália Maggiolo de Gouveia; a célebre e pungente carta do Bispo de Dili, D. José Joaquim Ribeiro que relata os momentos do fuzilamento e a alocução radiofónica dirigida às tropas portuguesas estacionadas em Timor.
Aqui fica a singela homenagem ao herói militar condecorado com a Medalha de Prata de Valor Militar, com Palma, em 1967, por actos praticados em Angola e com a Medalha de Cruz de Guerra colectiva à Companhia de Caçadores n.º 1522 comandada em Angola, em 1968, por Maggiolo de Gouveia.
Finalizo com o testemunho das palavras corajosas de Maggiolo aos seus algozes:"Irmãos, nós estamos já preparados para comparecer no Tribunal de Deus, lá vos esperamos também a vós. O meu único crime foi o de não renegar a minha fé e o de amar Timor. Morro por Timor. Morro pela minha Pátria e pela minha fé católica. Podeis disparar."
Magiollo de Gouveia - Presente!

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Divisão Azul

Nota: os bolds são meus.
Rui Moio

via INCONFORMISTA.INFO by Miguel Vaz on 12/15/09

Terminada a Guerra Civil, marcada pela extrema violência de ambos os lados em conflito, Franco começou a lenta reestruturação do país. Logo começou a 2ª Guerra Mundial, e lhe foi cobrada uma posição no conflito. O encontro com Hitler foi em 13 de Novembro de 1940, em Hendaye, na França. O encontro com Mussolini foi em 7 de Março de 1941, em Bordighera, na Itália. Franco optou pela neutralidade enviando para a Alemanha apenas uma divisão de infantaria, conhecida como "Divisão Azul", a de número 250 da Wehrmacht, comandada pelo Generalmajor Muñoz Grandes. Esta divisão era composta por voluntários espanhóis, na maior parte falangistas, e por alguns portugueses, ex-membros da Legião Viriato. Engajou-se na luta no setor de Leningrado, na Rússia, até ser retirada de combate, com cerca de seis mil baixas.

Dos portugueses desta divisão, somente um retornou vivo. A maior parte morreu no frio de 35º abaixo de zero das estepes russas. O sobrevivente chamava-se João Rodrigues Júnior. Este, em 1936, depois de ter cumprido o serviço militar, partiu para Espanha, onde havia começado a guerra Civil, e se alistara na Legião Estrangeira Espanhola. Em 1941, terminaria seu contrato de cinco anos com a Legião, mas decidiu por renová-lo para lutar contra o comunismo. Em 1942, aos 26 anos, retornou para sua casa, ainda um idealista.

sábado, 12 de dezembro de 2009

JUSTA HOMENAGEM A UM HERÓI

via REVERENTIA by HNO on 12/12/09

Um exemplo. Daqueles que devia ser muito mais seguido neste nosso pobre e desconsolado País.

domingo, 6 de dezembro de 2009

-" António Lobo Antunes e a escrita mentirosa "

Este médico das letras por dinheiro é capaz de vender a alma ao diabo! Consultem as cartas que ele escreveu à mulher quando era médico militar em Angola. Embora militar, rapidamente arranjou um tacho como médico civil, em Marimba. A tropa para este senhor não foi nenhum sacrifício, mas uma fonte de receitas.

Agora, vomita estas enormidades para melhor se enquadrar na "verdade" destes tempos e, possivelmente, também, porque assim arrecada muito mais dinheiro do que se dissesse a verdade.
Rui Moio

via OSIRISLUX by Osiris on 12/4/09
Custa-me encontrar um título apropriado à escrita de António Lobo Antunes que, podendo ganhar dinheiro com a profissão de médico, prefere a escrita para envergonhar os portugueses.

Talvez este início de crónica escandalize quem costume venerá-lo. Eu, por maior benevolência que para com ele queira usar não posso, nem devo. Por várias razões, algumas das quais vou enunciar. Porque não gosto de atirar a pedra e esconder a mão.
Este senhor foi mobilizado como médico, para a guerra do Ultramar. Nunca terá sabido manobrar uma G-3 ou mesmo uma Mauser. Certamente nem sequer chegou a conhecer a estrutura de um pelotão, de uma companhia, de um batalhão. Não era operacional mas bota-se a falar como quem pragueja. Refiro-me ao seu mais recente livro: Uma longa viagem com António Lobo Antunes.
João Céu e Silva pode reclamar alguns méritos deste tipo de escrita. Foi o entrevistador e a forma como transpõe as conversas confere-lhe alguma energia e vontade de saber até onde o entrevistado é capaz de levar o leitor. Mas as ideias, as frases, os palavrões, os impropérios, as aldrabices - sim as aldrabices - são de Lobo Antunes.
Vejamos o que ele se lembrou de vomitar na página 391:
«Eu tinha talento para matar e para morrer. No meu batalhão éramos seiscentos militares e tivemos cento e cinquenta baixas. Era uma violência indescritível para meninos de vinte e um, vinte e dois ou vinte e três anos que matavam e depois choravam pela gente que morrera. Eu estava numa zona onde havia muitos combates e para poder mudar para uma região mais calma tinha de acumular pontos. Uma arma apreendida ao inimigo valia uns pontos, um prisioneiro ou um inimigo morto outros tantos pontos. E para podermos mudar, fazíamos de tudo, matar crianças, mulheres, homens. Tudo contava, e como quando estavam mortos valiam mais pontos, então não fazíamos prisioneiros».

Penso que isto que deixo transcrito da página 391 do seu referido livro, se vivêssemos num país civilizado e culto, com valores básicos a uma sociedade de mente sã e de justiça firme, bastaria para internar este «escriba», porque todo o livro é uma humilhação sistemática e nauseabunda, aos Combatentes Portugueses que prestaram serviço em qualquer palco de operações, além fronteiras. É um severo ataque à Instituição militar e uma infâmia aos comandantes de qualquer ramo das Forças Armadas, de qualquer estrutura hierárquica e de qualquer frente de combate. Isto que Lobo Antunes escreve e lhe permite arrecadar «350 contos por mês da editora» (p. 330), deveria ser motivo de uma averiguação pelo Ministério Público. Porque em democracia, não deve poder dizer-se tudo, só porque há liberdade para isso. Essa liberdade que Lobo Antunes usou para enriquecer à custa o marketing que os mass media repercutem, sem remoques, porque se trata de um médico com irmãos influentes na política, ofendeu um milhão de Combatentes, o Ministério da Defesa, uma juventude desprevenida, porque vai ler estes arrotos literários, na convicção de que foi assim que fez a Guerra, entre 1961 e 1974. E ofende, sobretudo, a alma da Portugalidade porque a «aldeia global» a que pertencemos vai pensar que isto se passou na vida real nos finais do século XX.

Fui combatente, em Angola, uns anos antes de Lobo Antunes. Também, como ele fui alferes miliciano (ranger). Estive numa zona muito mais perigosa do que ele: nos Dembos, com operações no Zemba, na Maria Fernanda, em Nuambuangongo, na Mata Sanga, na Pedra Verde, enfim, no coração da guerra. Nunca um militar, qualquer que fosse a sua graduação ou especialidade, atirou a matar. Essa linguagem dos pontos é pura ficção. E essa de fazer cordões com orelhas de preto, nem ao diabo lembraria. E pior do que tudo é a maldade com que escarrou no seu próprio batalhão que tinha seiscentos militares e registou centena e meia de baixas...Como se isto fosse crível!
Se o seu comandante que na altura deveria ser tenente-coronel, mais o segundo comandante, os capitães, os alferes, os sargentos e os soldados em geral, lerem estas aldrabices e não exigirem uma explicação pública, ficarão na história da guerra do Ultramar como protagonistas de um filme que de realidade não teve ponta por onde se lhe pegue.
Em primeiro lugar esta mentira pública atinge esses heróicos combatentes, tão sérios como todos os outros. Porque não há memória de um único Batalhão ter um décimo das baixas que Lobo Antunes atribui àquele de que ele próprio fez parte. É preciso ter lata para fazer afirmações tão graves sobre profissionais que para serem diferentes deste relatório patológico, basta terem a seu lado a Bandeira Portuguesa e terem jurado servi-la e servir a Pátria com honra, dignidade e humanismo. Não conheço nenhum desses seiscentos militares que acolheram António Lobo Antunes no seu seio e até trataram bem a sua mulher que lhes fez companhia, em pleno mato, segundo escreve nas páginas 249 e 250. Mereciam eles outro respeito e outros elogios. Porque insultos destes ouvimos e lemos muitos, no tempo do PREC. Mas falsidades tão obscenas, nem sequer foram ditas por Otelo Saraiva de Carvalho, quando mandou prender inocentes, com mandados de captura, em branco e até quando ameaçou meter-me e a tantos, no Campo Pequeno para a matança da Páscoa. Estas enormidades não matam o corpo, mas ferem de morte a alma da nossa Epopeia Nacional.

Autoria: Barroso da Fonte

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

40 anos do 'Ás de Espadas'

via Leste de Angola by Jorge Santos - Op.Cripto on 12/3/09
3 de Dezembro de 1969 - 3 de Dezembro de 2009 Saudações a todos ASES de ESPADAS, sócios e simpatizantes, usando linguagem futebolística. 40 ANOS passados, parece efectivamente que foi ontem! Muita coisa se passou e se escreveu na história...

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Livro Em Nome da Pátria de Brandão Ferreira

via nonas by nonas on 12/1/09


A Livros de Hoje deu à estampa este magnífico livro "Em Nome da Pátria" da autoria do Tenente-Coronel Piloto-Aviador João José Brandão Ferreira, no qual o autor disserta ao longo das 588 páginas, de uma forma esclarecida e esclarecedora sobre Portugal, o Ultramar e a Guerra Justa.
Uma das páginas mais brilhantes do livro é o capítulo Porque desistimos da Guerra, no qual faz um retrato da traição de Marcello Caetano.
Há a salientar no seu Anexo, as magníficas entrevistas do Tenente-General Silvino Silvério Marques e do Inspector Óscar Cardoso.
É na verdade um livro grande e um grande livro em que Brandão Ferreira está em grande!
Leitura obrigatória!

terça-feira, 3 de novembro de 2009

MAS QUE GRANDE "MAGANO" O FRANCO! NEM BOM VENTO NEM MELHOR CASAMENTO PARA CÁ...

via DA TAILÂNDIA COM AMOR E HUMOR de Jose Martins em 03/11/09
Hitler e Franco encontram-se em Hendaye

Roger Viollet

Há 70 anos que se suspeitava que a Espanha franquista projectara invadir Portugal. Primeiro, os falangistas vitoriosos desafiaram o caudilho a "fazer um passeio triunfal até Lisboa", em Março de 1939. Depois, com a II Guerra Mundial, Franco aproximou-se perigosamente de Hitler. Contudo, faltavam provas credíveis dessas intenções.
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Graças ao investigador espanhol Manuel Ros Agudo, confirma-se que, em Dezembro de 1940, Portugal esteve a um passo de ser invadido. O documento, dos arquivos da Fundação Francisco Franco, descoberto em 2005, "é precioso", comentou ao Expresso o historiador Fernando Rosas. "Prova que os espanhóis não só tinham um plano de invasão, como o tencionavam executar à margem dos alemães".
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Datado de Dezembro de 1940, o "Plano de Campanha nº 1 (34)" - elaborado pelo Estado-Maior espanhol - foi, esta semana, apresentado por Ros Agudo numa conferência no Instituto de Defesa Nacional. Em 120 páginas, previa-se um ataque surpresa, levado a cabo por uma força de 250 mil homens, coordenado com uma ofensiva hispano-germânica sobre Gibraltar (operação Félix). A invasão de Portugal destinava-se a impedir que os britânicos reagissem, ocupando os portos do seu velho aliado.
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domingo, 18 de outubro de 2009

Um livro que é uma provocação legítima

«O Tenente-Coronel Piloto Aviador reformado BrandãoFerreira, hoje comandante na aviação civil, vai apresentar o seu último livro. A sessão realizar-se-á dia 28 de Outubro, Quarta-Feira, pelas 18h, na Academia Militar - Rua Paço da Raínha, nº 29. E o respectivo convite está aqui.»

Um livro que é uma provocação legítima
via jantar das quartas de VL em 18/10/09


REGRESSO
Não fugi à guerra, não fui para Parisnão fugi da terra, não traí o povo,
eu fui ao combate debaixo do Sol
e voltei de novo.
Posso aquecer-me com o Sol mais quente
que me enche as veias, vinho de raíz,
não se vai à guerra e volta de novo
sem se sentir dentro a voz do país.
Posso agora olhar, olhar descansado,
as belas moçoilas, bordando ao luar
sinais de conjuro para o namorado
um dia voltar
E posso falar, falar compassado,
com o homem velho que me disse um dia:
"se eu tivesse agora a tua idade
era eu quem ia".
.....................João Conde Veiga

Desde 1961, ao longo de pouco mais de treze anos de campanha em três teatros de operações, as Forças Armadas mobilizaram centenas de milhar de jovens portugueses para defender a soberania portuguesa, num esforço humano enorme, intenso e dedicado. Um desafio que nos impunha combater e vencer - e vencemos - enquanto Portugal soube manter uma Decisão clara, uma Vontade Política fundada no Interesse Nacional e uma Determinação consequente em enfrentar os inimigos internos e todas as manobras abertamente hostis dos grandes blocos imperialistas.
É nesse enquadramento que o Tenente-Coronel Piloto Aviador reformado BrandãoFerreira, hoje comandante na aviação civil, vai apresentar o seu último livro. A sessão realizar-se-á dia 28 de Outubro, Quarta-Feira, pelas 18h, na Academia Militar - Rua Paço da Raínha, nº 29. E o respectivo convite está aqui.
Devemos dizer que Brandão Ferreira é um autor realmente dissidente, um verdadeiro militar que sempre defendeu Portugal, a justiça da causa portuguesa, a necessidade de resistir e vencer essa guerra que nos foi imposta e a dignidade dos nossos combatentes. Assumiu desde sempre e publicamente com Honra essa missão difícil onde quer que fosse necessário, numa atitude muito firme de Fidelidade a Portugal e ao seu Juramento de Bandeira. E sob uma preocupação permanente de Serviço do Conhecimento e da Verdade, que sempre fez prevalecer sobre todos os factores emocionais.
É assim natural que lhe queiramos oferecer a nossa solidariedade de portugueses conscientes, determinados a lutar para que a Verdade triunfe e que seja feita justiça ao melhor das nossas últimas gerações. Tal como eles deram, queiramos nós dar tudo para que Portugal continue.
VL

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Histórias da Guerra Colonial em Alverca

via Leste de Angola de Jorge Santos - Op.Cripto em 20/09/09
Aniceto Afonso, antigo director do Arquivo Historico-Militar (AHM), autor do livro "O meu Avô Africano", vai estar na Biblioteca Municipal de Alverca, no dia 26 de Setembro, pelas 15:30 horas, para falar sobre a Guerra Colonial. A conversa insere-se na...

terça-feira, 2 de junho de 2009

Lembrando Luís Cabral: das vítimas

via COMBUSTÕES de Combustões em 01/06/09

(...) Luís Assaul, Sold 2ª CC; Fobé Baio, 1º Srg 1ª CC; Braima Baldé, Alf 1ª CC Bambadinca; Dabo Baldé, Fur 2ª CC, Portogole; Malan Baldé, Alf 3ª CC, Cumeré; Samba Baldé, Fur 1ª CC; Silvério Samba Baldé, Fur 2ª CC; Armando Carolino Barbosa, Ten 2ª CC; Braima Bari, Fur 2ª CC; Mamadú Saliú Bari, Alf 2ª CC; Américo Lamine Camará, Fur 2ª CC; Braima Camará, Fur, Gr Vingadores; Bubacar Camará, Fur 3ª CC; Granque Camará, Sold 3ª CC; Mussa Camará, Fur 1ª CC; Quecumba Camará, 1º Srg 2ª CC; Tomás Camará, Ten 1ª CC; Alfa Candé, Fur 2ª CC; Aruna Candé, 1º Srg 2ª CC; Aliu Sada Candé, Alf 2ª CC; António Samba Juma Djaló, Alf 1ª CC; Bacar Djassi, Ten 3ª CC; Bailo Djau, Alf 2ª CC; Alfa Embaló, Fur 2ª CC/Gr Vingadores; Anastácio Moreira Ferreira, Fur BCmds; Augusto Filipe, 2º Srg 1ª CC; Francisco Alenquer Imbadé, Fur 3ª CC; Cube Jaló, Sold 3ª CC; Abdulai Queta Jamanca, Ten 1ª CC; Manga Mané, Fur 1ª CC; António Mendonça, Fur 2ª CC; Belente Mepe, Fur; Marcelino Moreira, Alf 2ª CC; Marcelino Pereira, Alf 2ª CC; Col Quessange, 1º Srg 3ª CC; José Aliú Queta, 1º Srg 2ª CC; Tumane Queta, Sold BCmds; Amarante Saja, Fur 3ª CC; Zacarias Saiegh, Cap 1ª CC; Demba Cham Seca, Alf 1ª CC; João Uloma, Alf 1ª CC; António Vasconcelos, Alf 3ª CC; Cicri Marques Vieira, Ten 2ª CC, (...).

Boinas Verdes (1970)

segunda-feira, 1 de junho de 2009

(título desconhecido) - Reflexão acerca dos tempos coloniais

(título desconhecido) - Reflexão acerca dos tempos coloniais

via Lumege de Zé Oliveira em 01/06/09
Obrigatório ouvir
Reflexão acerca dos tempos coloniais
Sem fazermos juízo de opinião, recomendamos vivamente que se ouça a edição do passado domingo do programa de Paulo Coelho na Antena-1 "Memórias Vivas".

Concorde-se ou não com o que ali é afirmado, a nossa opinião acerca da guerra colonial em que estivemos envolvidos não continua exactamente a mesma depois de ouvirmos o depoimento do almirante Nuno Vieira Matias.

Acerca de África propriamente, ele só fala nos últimos 30 minutos. Mas é importante que se ouça também o primeiro quarto de hora.

Excelente programa de rádio.
Aqui:


Se não entrar directo, procure "Memórias Vivas" e clique em [Audio WMA].

sexta-feira, 15 de maio de 2009

Guiné 63/74 – P4313: Tugas - Quem é quem (5): João Bacar Jaló (1929-1971) (B...

via Luís Graça & Camaradas da Guiné de Eduardo J. Magalhães Ribeiro em 09/05/09

Há histórias da guerra que travámos em África, que obviamente se perderam "ad eternum" com aqueles que já iniciaram a última "marcha".  
Com o "desaparecimento" dos seus protagonistas, essas histórias jamais se conhecerão. Podiam até nem ser histórias "importantes", mas perderam-se definitivamente.  
Mas ainda há milhares de intervenientes em factos históricos, que por diversos motivos não mostram qualquer intenção de algum dia abordarem esses acontecimentos. São diversas as explicações para este fenómeno. 
Alguns veteranos escusam-se,  dizendo não ter nascido para escrever e muito menos descrever, narrar, versejar... Se uns assim dizem a verdade, outros escondem-se por detrás de posições e justificações que, por vezes, reprimem  ainda velhas emoções e outros sentimentos que, como não podia deixar de ser, aceitamos e respeitamos.  
Algumas dessas atitudes são tão firmes e inabaláveis que nos dão a certeza da gravidade dos estados psíquicos, nomeadamente do terrível stress pós-traumático de guerra. 
Somos seres humanos, mais ou menos sensíveis, tendo enfrentado a ida para África com maior ou menor preocupação. Nesta minha divagação pessoal, não sendo médico, nem um perito nestes assuntos psicológicos, permito-me pensar que todos aqueles que foram mobilizados ficaram marcados para o resto das suas vidas. Depois aqueles que enfrentaram combates e situações de forte tensão e, ou, estiveram sob fogo inimigo, viram esse sintoma agravado e elevado a uma alta potência.  
São marcas de tal modo cicatrizadas e enraizadas, que nem o bisturi mais acutilante as sacaria fora. E se as mazelas físicas são visuais, marcantes e traumatizantes, as psíquicas não o são menos, por invisíveis na fisionomia corporal, mas quantas vezes espelhadas, quer no teor das palavras, nas atitudes do dia a dia e, ou, no comportamento pessoal. É notável que uns estão mais afectados que outros, pelo menos aparentemente, digo eu.  
Mas, com imensa alegria e felicidade, penso que, graças a Deus, ainda por cá andamos muitos, mantendo a memória bem viva do nosso passado recente em África. Assim, com a colaboração deste e daquele camarada, ajustando e corrigindo pormenores, ainda é possível reconstituir alguns puzzles incompletos, ajudando a deixar histórias mais completas e leais à verdade dos factos. 
Esta é uma delas, que pode ainda não estar concluída.
Por isso, deixo aqui um apelo a todos os restantes camaradas, para que, quem conheça mais algum pormenor deste herói, nos preste também a sua contribuição, por grande ou pequena que lhes pareça.  
Até ao momento já recebemos os seguintes complementos testemunhais do Benito Neves, do João Parreira e do Mário Fitas, que conheceram e conviveram com o João Bacar Jaló  (ou têm informações inéditas sobre a sua vida e morte):  
1 - O Benito Neves, enviou o seguinte e-mail em 4 de Maio de 2009
Meu caro Magalhães Ribeiro, o meu abraço. 
Vi hoje publicada no blogue a biografia do nosso João Bacar e as dúvidas sobre a sua morte. 
Sobre esta última já contactei um dos alferes da minha CCav 1484, que privou com o João Bacar e que, inclusivamente, o recebeu em sua casa todas as vezes que o João Bacar veio à Metrópole. 
Há dias estive com o referido alferes que me esteve a contar a versão que tem sobre a morte do João e que, ao que parece, não foi bem como foi publicado mas quase. Segundo ele, no cenário de guerra, o João Bacar teria na mão uma granada já sem cavilha, terá tropeçado e caído em cima da granada que explodiu, matando-o. As restantes granadas (e ele trazia sempre várias) terão explodido por simpatia.  
De qualquer forma eu já pedi a confirmação desta versão ao alferes Miguel da CCav 1484, que sei ter tido contactos com pessoas que estiveram próximas, na altura da morte do João.  
Em memória de João Bacar, relembro o HOMEM e o COMBATENTE. Quando esteve connosco ainda era alferes e foi, depois, promovido a tenente.  Participou em todas as operações que efectuámos no Sector de Catió. Quantas vidas nos poupou? Não sabemos, mas a nossa gratidão para com ele é do tamanho do Mundo. Aquando da sua morte as lágrimas rolaram livremente pelas minhas faces. Hoje continuo a inclinar-me perante a sua memória.  
Deixámos Catió em Julho de 1967 e os oficiais e sargentos da Companhia ofereceram ao João Bacar aquilo que soubemos que ele mais desejava: um relógio automático, à prova de água e com ponteiros luminosos. Por trás tinha gravado: "Recordação da CCav 1484". O João delirou!  
Pena que a biografia publicada no blogue não permita leitura. Se te fosse possível a digitalização e o envio por e-mail, ficava-te imensamente grato.  
Um abraço e o meu muito obrigado 
Benito Neves  
2 - O Mário Fitas, colocou o seguinte comentário ao post 4275
Caros amigos da Tabanca Grande.  
Conheci o João, era assim que tratávamos o Alferes de 2ª Linha João Bacar Jaló.  
A C Caç 763 entrou com ele e a sua Milícia nos Acampamentos [do PAIGC] de Cufar Nalu, Cabolol e Caboxanque. Assaltámos Cadique Ialá e Nalu. Já escrevi isso em "Putos Gandulos e Guerra" e "Pami na Dondo a Guerrilheira" sobre ele e a sua gente.  
Escreverei mais, porque só quem o acompanhou, poderá confirmar o seu valor. Hoje deixo aqui uns nomes que muitos conhecerão da gente do João: Carlos Queba, Gibi Baldé, Amadu Djaló, Alfa Nan, Cabo, Indrissa, Tui na Defa...  
Alguns morreram antes, do seu Capitão. Que terá acontecido aos outros? Ao Gibi Baldé sei que cortaram as mãos! E ao meu velho Alfa Nan - Cabo -, a quem devo a vida?  
Gostaria de saber, porque eles vivem na minha memória, como vivem os meus valentes soldados. Desculpem o desabafo! Foi assim! Assim o recordarei!  
Obrigado,  camarada Ranger, por trazeres aqui o Capitão (do Exército Português),  o Guineense João Bacar Jaló.  
O abraço de sempre do tamanho do Cumbijã,  
Mário Fitas  
3 - Em 5 de Maio de 2009, o João Parreira enviou também um e-mail
Sobre o nosso valoroso João Bacar Jaló... Falei esta tarde com um camarada comando africano - o Alferes Amadú Bailo Djaló -, que parte do meu Grupo "Fantasmas", e que o conhecia bem e me disse o seguinte:  
- O Bacar Jaló tinha saído de uma bolanha perto de Tite e, estando-se a aproximar de uma tabanca, sacou de uma granada de mão e despoletou-a. No entanto, o IN abriu fogo e uma roquetada acertou-lhe na anca,  arrancando-lhe completamente a perna. Ao cair, a granada que ele levava na mão descavilhou-se e acabou por explodir, junto ao seu corpo, causando-lhe a morte.  
O Amadú, que era da mesma Companhia do João Bacar, não foi nessa operação por estar no Hospital.  
É, assim, mais uma triste história que podia ter acontecido a qualquer um de nós e que esta gente em Portugal desconhece, e mesmo que conhecesse não dava qualquer valor.  
Abraço,  
João Parreira  
4 - O Benito Neves, em 5 de Maio de 2009, enviou outro e-mail
Caro Amigo, esta versão eu não conhecia e, na verdade, só quem estava com ele, e perto dele, poderá testemunhar com rigor como a coisa aconteceu.  
No fundo acabamos por, desta forma, estarmos a prestar uma homenagem a um HOMEM simples, com o coração do tamanho do mundo, que nos guiou, comandou e nos salvou. E sei do que falo porque muitas vezes era o João Bacar que, antes e até durante as operações, alterava os percursos de forma a minimizar os riscos que as envolviam.  
Relembro que, naqueles anos de 1966/67, as ordens de operações chegavam ao Batalhão delineadas não sei se pelo comando de Agrupamento (Bolama), se por Bissau.  
O Comandante do Batalhão reunia, um ou dois dias depois (dependia dos transportes), com os Comandante das Companhias que iam intervir, normalmente de Cufar, Bedanda, Comandante da Companhia de Intervenção de Catió (que era a minha) e com o Comandante da Companhia de Milícias 13.  
Havia na parede do gabinete um mapa da zona onde era exemplificada a operação que iria ser feita (por onde iriam avançar as Companhias que iriam montar segurança, por onde iriam progredir a Companhia de Milícias 13 e a de intervenção, etc., etc.). Depois de explanada toda a operação, era perguntado aos Srs. Cmdts das Companhias se haviam dúvidas, que eram (ou não) esclarecidas. Quando chegava a vez do João Bacar falar (e quantas vezes aconteceu...) o mesmo dizia simplesmente:  
- Isso está tudo mal e se for assim eu não vou.  
Pasmava-se...  
- Mas está tudo mal o quê? 
- Tudo - respondia o João - Esta e aquela Companhia que vão montar segurança, neste e naquele ponto, não podem avançar porque o rio está a encher, é fundo e tem muita corrente. Portanto, quando àquela hora for necessário a montar segurança, não estão lá. A Companhia de Milícias e a CCav não podem avançar por aqui porque a mata é muito fechada, dificulta a progressão e, portanto, quando se faz dia ainda estamos longe. 
 Além há postos de sentinela avançada que detectam a nossa progressão e quebra-se o sigilo da operação. 
Ficava tudo mudo.
- Mas, João, isto tem que ser feito! - dizia o Comandante do Batalhão.  
E o João, logo ali, alterava horas e percursos,  como ele sabia. 
Posso dizer que em toda e qualquer operação delineada (ou alterada) pelo João Bacar, nunca as NT tiveram qualquer problema e as coisas correram muito bem. No entanto, outras houveram em que não foi tanto assim. 
O João foi, para nós, uma fonte inspiradora de confiança e até de alguma tranquilidade. Admirado por todos que lhe ficámos a dever imenso e cada um nem sabe quanto. Ainda hoje, repare-se, o João Bacar é uma fonte inesgotável de boas recordações, de respeito, grande admiração e enorme gratidão.  
Foi para mim um privilégio tê-lo conhecido e convivido com ele durante 16 meses. 
Um abraço  
Benito Neves 
5. Comentário do MR:
Muito agradecido aos 3, com um abraço Amigo do MR. 
____________
Notas de MR:
Ver artigos de:
10 de Dezembro de 2007 > Guiné 63/74 - P2340: Pami Na Dondo, a Guerrilheira, de Mário Vicente (5) - Parte IV: Pami e Malan são feitos prisioneiros (Mário Fitas)

4 de Novembro de 2007 >
 Guiné 63/74 - P2239: Tugas - Quem é quem (2): António de Spínola, Governador e Comandante-Chefe (1968/73)

23 de Outubro de 2007 >
 Guiné 63/74 - P2207: Tugas - Quem é quem (1): Vasco Lourenço, comandante da CCAÇ 2549 (1969/71) e capitão de Abril

Ver também:

20 de Maio de 2007 >
 Guiné 63/74 - P1769: Estórias do Gabu (4): O Capitão Comando João Bacar Jaló pondo em sentido um major de operações (Tino Neves)

8 de Fevereiro de 2007 >
 Guiné 63/74 - P1502: Crónica de um Palmeirim de Catió (Mendes Gomes, CCAÇ 728) (8): Com Bacar Jaló, no Cantanhez, a apanhar com o fogo da Marinha

30 de Maio de 2006 >
 Guiné 63/74 - DCCCXIX: Do Porto a Bissau (23): Os restos mais dolorosos do resto do Império (A. Marques Lopes) 

31 de Maio de 2006 >
 Guiné 63/74 - DCCCXXVII: A 'legenda' do capitão comando Bacar Jaló (João Tunes) 

11 de Junho de 2005 >
 Guiné 69/71 - CIII: Comandos africanos: do Pilão a Conacri (Luís Graça)

Guiné 63/74 - P4348: Questões politicamente (in)correctas (38): Os nossos queridos nharros...

via Luís Graça & Camaradas da Guiné de Luís Graça em 15/05/09

1. A propósito do vocábulo nharro (que tinha no passado colonial e ainda tem hoje, para alguns falantes da língua portuguesa, uma conotação racista, pejorativa, ofensiva) (*), não resisto a recuperar um velho texto do nosso querido camarada e amigo, o Zé Teixeira, já publicado na I Série do nosso blogue (**).

É um belíssimo texto, hoje esquecido, de difícil acesso, mas que eu continuo a subscrever de alma, coração e mente abertos... (Eu, editor L.G., aqui com dois queridos nharros, da CCAÇ 12, na foto à esquerda, em Finete, Cuor, no 2º semestre de 1969)...

Não é preciso lembrar - a não ser eventualmente para os periquitos da Tabanca Grande - que o Zé foi talvez dos poucos que, graças ao seu papel de enfermeiro (e também por mérito pessoal, pela sua generosidade, coragem, inteligência emocional e demais qualidades humanas), conseguiu saltar a barreira da espécie: ele, tuga, foi aceite e amado pela população fula, e ainda hoje tem verdadeiros amigos, fulas, lá Guiné-Bissau profunda... Ele é amado, mimado, adorado quando lá volta (e, segundo creio, já voltou duas vezes, em 2005 e 2008)...

Devo acrescentar que o termo nharro, que nós usávamos no nosso calão de caserna, na Guiné, e nomeadamente na zona leste, não tinha propriamente uma conotação racista... Minto: cheguei uma vez por outra a ouvir o termo como sinónimo de preto, barrote queimado... Rascistas, puros e duros ? Com certeza, que os havia, embora minoritários, na Guiné de Spínola... No meu tempo, não se pode dizer que eles se manifestassem abertamente, bem pelo contrário... Conheci alguns, em Bissau, que não perdoavam a Spínola a sua política da Guiné Melhor...

O que posso acrescentar é que o significado da palavra dependia dos interlocutores, do contexto da comunicação, do tom de voz, da entoação... Tal como os palavrões, bem duros para a sensibilidade auditiva das gentes do sul, que ainda hoje se ouvem no Norte duriense e minhoto, puro e duro... (onde, de resto, o palavrão é sempre uma manifestação de ternura e de afecto, no círculo familiar e de amigos).

Não sei qual é a origem do termo, provavelmente é crioulo da Guiné. Ele ainda não consta do Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa, mas continua a fazer parte da língua portuguesa viva, uma língua fêmea, uma das línguas mais abertas, plásticas, generosas, criativas e procriadoras que eu conheço... Já o vi traduzido por gandarro, massaro, pessoa ignorante, sem conhecimentos, num sítio brasileiro ...

Continua, por outro lado, a fazer parte do calão dos nossos jovens urbanos e suburbanos... Já vi inclusive a utilização do termo, num blogue, como adjectivo: tuga nharro (ou português ignorante)...

Em suma, que me perdõem os puristas, os ortodoxos, os politicamente correctos, mas vou continuar a utilizá-lo, nomeadamente em (con)textos literários e poéticos, embora sempre em itálico, como por exemplo quando evoquei a morte do meu primeiro soldado, justamente a meu lado, na zona da Ponta do Inglês, Xime, no dia do meu baptismo de fogo, em 7 de Setembro de 1969:

(...) O que interessa é que chorei por ti,
Confesso que chorei por ti,
Que morreste a meu lado,
E que levavas um prisioneiro,
Teu irmão,
Pela mão.
E que não eras meu irmão.
Nem grande nem pequeno.
Nem tinhas a mesma cor de pele.
Nem a mesma religião.
Nem a mesma língua.
Nem a mesma pátria.
Nem o mesmo continente.
Não comias carne de porco
Nem bebias água de Lisboa.
Eras apenas um guinéu,
Um nharro,
Soldado-atirador
De 2ª classe.
Ganhavas 600 pesos de pré.
Um saco de arroz por mês
Para alimentar a tua família.
Para mim, eras apenas um homem,
Da espécie Homo Sapiens Sapiens.
A única que chegou até aos nossos dias.
O primeiro que eu vi morrer a meu lado.
Nunca mais chorei por ninguém.
Chorei por ti, Ieró Jau.
Chorei de raiva. (...)

Luís Graça


Mas voltemos ao Zé Teixeira, o nosso Esquilo Sorridente, o nosso tabanqueiro das primeiras horas, um dos fundadores e animadores da Tabanca de Matosinhos, o talentoso colaborador do nosso blogue (cujos textos já mereciam um livro!), o homem sensível e solidário, o nharro mais nharro de todos os tugas que passaram pela Guiné...


Não é um texto qualquer, é uma página de antologia, arrancada do coração onde se faz um sentida homenagem aos órfãos de Pátria, aos nossos queridos nharros... É também um dedo acusador, apontado ao Estado português...

Obrigado, Zé, ninguém saberia dizer isto melhor do que tu!

O José Teixeira foi 1.º Cabo Enfermeiro na CCAÇ 2381, Buba, Quebo, Mampatá e Empada, 1968/70.

Ei-lo aqui, no Saltinho, trinta e cinco anos depois, em 2005, com a mulher, Adada, do actual Régulo de Sinchã Shambel, Suleimane Shambel Baldé, filho do Régulo Shambel, de Contabane (em 1968/70).

Um belo exemplo do que é a hospitalidade fula: " A Adada, filha do Aliu de Mampatá, a oferecer-me um ronco para nha mindjer, um lindo colar que tirou do seu pescoço". (LG)



Aos nossos queridos nharros...


por Zé Teixeira


Tropa africana, que connosco deram o seu sangue suor e lágrimas, por Portugal, com toda a carga emotiva, de carinho e afecto que a palavra nharro possa conter.

O programa aparecido na TV (***) teve pelo menos o condão de nos pôr a reflectir, a nós que durante cerca de dois anos convivemos diariamente com a tropa africana, fiel a Portugal e não ao regime, como alguns tentam deixar passar.

O conceito de mãe-pátria, Metrópole, Lisboa, estava arreigada naquela gente, não pelos políticos, mas pelos portugueses brancos que por lá foram passando, muitos dos quais para cumprir penas de índole criminal e quantas vezes por estarem em desacordo com os políticos e as políticas exercidas em Portugal.

Era um conceito forte, de esperança e de orgulho. Foi com eles que eu aprendi quanto se deve respeitar a bandeira do meu País. Com que orgulho eles a saudavam (e toda a população) no hastear e arrear diário. Gesto que ainda hoje se repete. Há um ano em Bissau, [em 2005, ] pude testemunhar o toque de hastear no quartel da Amura e a reacção de toda a população na rua exterior, até onde era possível ouvir o toque.

Era este conceito de filhos de Portugal, aliado naturalmente à propaganda da época e aos benefícios financeiros que os faziam alinhar ao nosso lado com a sua experiência e conhecimento de logística local, dos carreiros das tabancas inimigas, dos perigos desconhecidos para um europeu ingénuo, para quem tudo era estranho, desde o clima ao modo de estar em sociedade, à floresta com os seus segredos e perigos, às técnicas de guerrilha usadas pelo adversário.

Pergunto:

- Quem de nós, periquitos, não sentiu ao chegar, uma mão amiga, um sorriso e um alerta para um eventual perigo ?

- Quem nos orientava na Tabanca, na busca de uma lavandera bonita e jeitosa ?

- Quem nos avisava dos perigos da floresta, abelhas, formigas, cobras ? (Aos bloguistas que se deram ao trabalho de lerem o meu diário (****), recordo a cena do ataque de abelhas e a forma como um milícia cujo rosto não fixei que me agarrou por um braço, me escondeu atrás de uma árvore e me aconselhou a ficar rigidamente quieto até elas, as abelhas, se irem embora. Foi assim que aprendi a não ter medo de abelhas e tanto jeito me fez no segundo ataque que sofri mais tarde.)

- Quem nos indicava à chegada o melhor sítio para tomar banho, no rio para tomar banho sem correr perigo ?

- Quem nos arranjava os frangos e os cabritos para as tainas, para esquecer as mágoas ?

- Quem se prontificava a ajudar o colega do morteiro, o enfermeiro (Bons amigos que tive e recordo com saudade), no transporte do equipamento, etc. ?

- Quem ainda hoje apesar de tão desprezados pela mãe-pátria, como costumavam dizer, nos recebem com um carinho e afecto, que só quem lá foi consegue entender e apreciar ? (Vi e senti lágrimas, recebi abraços longos e quentes, passados 35 anos de separação).

- Quem servia o meu País e desprezava o seu país, deixando mulheres e filhos da outra banda (Kebá de Empada, meu querido amigo, recordo as conversas que tive contigo, sobre as tuas duas mulheres e os teus filhos que optaram pelo outro lado, quanto tu sofrias quando eras atacado! Porque te recusavas a ir comigo para o mato!).

- Quem, debaixo de fogo, avançava de peito aberto para o Inimigo (eu testemunhei), protegendo-nos (quantos de nós tão acagaçados, que não cabia um feijão no buraquinho) convencidos que era esse o caminho certo para o seu País ?

- Quem vergonhosamente os abandonou, deixando que tantos fossem assassinados pelos seus conterrâneos, só porque estavam do lado errado, quando politicamente correcto Portugal admitiu que não tinha saída, a não ser dar a oportunidade a um povo de construir e seguir o seu próprio destino ?

- Quem a partir desse momento os deixou órfãos de Pátria, obrigando-os a irem procurar a sua pátria que até então lhe garantiam não existir, sem qualquer preocupação de lhe dar o prémio merecido por tudo quanto fizeram em nome e para Portugal ?

- Quem lhe traiu todas as promessas de uma Guiné melhor, com Portugal ?

Sinto vergonha. Estão-me na memória os Sambá, os Adbulai, os Ussumane, os Amadu, os Aliu, os Braima, os Mamadu, tantos outros, que conheci e com quem convivi sadiamente, que me acompanharam em tantos encontros com o adversário e que merecem ser considerados filhos de Portugal, pelo que fizeram, pelo que sentiam e ainda sentem, pela alegria que expressam quando nos vem chegar.

Quantos deles assassinados por incúria de Portugal, quantos andaram anos fugidos no mato, deixando a família nas mãos dos adversários, quantos ainda não reconstruíram as suas vidas, quantos sofrem o stress de guerra, quantos morreram à fome, quantos passam fome, por falta de trabalho. Não sabiam fazer mais nada a não ser guerra.

Telefonou-me há dias o Quintino Procel, de Empada. Esse conseguiu fazer no meu tempo a 4ª classe e seguiu a carreira de enfermeiro, sendo hoje o enfermeiro-chefe em Canjadude. Quando em 2005 passei por Empada, procurei-o.Alguém o informou da minha presença e o seu telefonema chegou um ano depois:
- Tissera, tu vai na Guiné e não fala comigo ? Eu na tem casa em Canjadude. Bó na vem e firma lá. Eu fico triste, manga dele, por não ver Tissera. - Foram estas palavras que guardei no coração passados 35 anos.


Creio que ainda há algum tempo para Portugal olhar para esta gente. Não pode desperdiçar esta oportunidade.



Creio que nós, antigos combatentes, ainda podemos fazer algo por eles. No mínimo ir visitá-los(os que puderem), testemunhar-lhes a nossa amizade, tanto quanto eles nos deram a deles. Permitir que sintam e vivam essa alegria de não sentirem que foram esquecidos, por aqueles que, como eles, deram sangue, suor e lágrimas, por uma Pátria que, não sendo actualmente a deles, se deve sentir orgulhosa de os ter tido como filhos, embora de 2ª...


Zé Teixeira

[Revisão / fixação de texto: L.G.]


____________

Notas de L.G.:

(*) Vd. poste de 11 de Maio de 2006 > Guiné 63/74 - DCCXLIII: Aos nossos queridos nharros (Zé Teixeira)

(**) Vd. poste de 14 de Maio de 2009 > Guiné 63/74 - P4341: Questões politicamente (in)correctas (38): Abuso e abuso do termo 'nharro' (Zeca Macedo / Henrique Matos)

(***) Vd. post de 6 de Maio de 2006 > Guiné 63/74 - DCCXXX: Ex-comandos africanos, 'órfãos de Pátria', reportagem na RTP 1 (José Martins)

(****) Vd. post de 14 de Março de 2006 > Guiné 63/74 - DCXXVI: O meu diário (Zé Teixeira) (fim): Confesso que vi e vivi

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